Somos todos filhos amados pela Vida

Um dia nos disseram que os nossos problemas atuais eram devidos a traumas vividos na infância, à incapacidade dos nossos pais em nos dar tudo o que nós precisávamos… e isso nos tirou a esperança de ter uma vida plena, nos deixou ainda mais órfãos, nos tirou a força, nos tornou vítimas do destino.

O que nos poderíamos fazer hoje para mudar os fatos do passado? Longos anos de terapia não se mostraram suficientes, os problemas persistiam, os nossos pais continuavam sendo os mesmos, os fatos continuavam os mesmos e as nossas dificuldades continuavam inalteradas.

No entanto algo mudou nos últimos anos. Surgiu uma nova abordagem através dos fenômenos observados por Bert Hellinger nas constelações familiares. Ele percebeu que são precisamente as dificuldades vividas na nossa infância as que estimulam e possibilitam o nosso desenvolvimento; as que nos preparam para viver num mundo de conflitos, polaridades e opostos. A vida real nos confronta com conflitos e dificuldades o tempo todo, não é mesmo? Por que o preparo para essa mesma vida devia ser diferente?

Sabemos que as plantas criadas em estufas são mais frágeis e vulneráveis, e que, por outro lado, as plantas que crescem na intempérie são muito resistentes e persistentes… não seria assim também conosco? Qual das 2 leva a vida adiante de maneira autônoma e sem necessidade de inúmeros apoios e proteções?

O ponto positivo de tudo isso, é que agora podemos olhar para os nossos progenitores como pessoas comuns, com dificuldades, culpas e limitações. Desta forma eles foram perfeitos na função de pais.

Perfeitos? Sim, perfeitos. Eles são os nossos pais porque um dia da sua união foi transmitida a vida (para nós). É esse ato que faz deles pais. Nessa função eles foram perfeitos. Há algo maior que um ser humano possa realizar no mundo do que transmitir a vida? Tudo o mais que eles fizeram por nós, foi um acréscimo à perfeição da transmissão da vida.

Podemos perceber também que a força da vida é soberana ao que possamos interpretar de bom ou ruim do ato da união física entre eles. Mesmo se fomos gerados num ato de violência, o presente da vida foi perfeito, nós estamos aqui, vivos. Os supostos defeitos de caráter neles não são um impedimento para que eles fossem canais de vida. A vida não se importa com os “defeitos” humanos, ela passa através de “bons” e “maus”.

A consequência mais importante dessa nova visão é que podemos tomar aquilo que os nossos pais têm para nos oferecer, em sua totalidade. Não somente o que nos consideramos “bom”, como também as suas carências e limitações. Tudo isso faz deles pais perfeitos, na sua imperfeição. É da imperfeição que vem à força para o novo, para o desenvolvimento, para a vida.

Agradecimento e reverência são as emoções imediatas que emergem ao tomá-los tal e como são. Ficamos pequenos diante deles. Retomamos o nosso lugar de filhos.
O paradoxal é que ao reclamar o nosso lugar de filhos, ao ficarmos pequenos diante dos nossos pais, estamos num lugar de honra, o nosso lugar. Neste lugar somos filhos amados da vida.

Aqui permitimos que seja retomado o fluxo de amor e abundância na nossa vida. Fluxo que havia sido interrompido por nós mesmos ao olhar para os nossos pais com reprovação, ao querer que eles fossem diferentes do que são: pessoas comuns usadas como ferramentas pela vida para chegar até nós.

Finque pé neste lugar, recuse-se a ser outra coisa além de filho de seus pais. Tome tudo deles e você verá a sua vida transformada completamente. Você não estará tomando apenas os seus pais tais e como são, estará aceitando também o presente da vida e tudo o mais que ela nos oferece: desenvolvimento, abundância, amor.