Dar as boas vindas àquilo que nos incomoda

Normalmente, o estado de incoerência interna é visto como algo negativo, algo do que queremos nos livrar rapidamente. Mas na verdade, trata-se de uma oportunidade para algo novo, trata-se do tecido mesmo da criatividade.

Chamo aqui de incoerência à experiência pessoal de estarmos divididos, como por exemplo quando temos um conflito pessoal. Quando estamos em conflito interno, há 2 partes de nós que nos “falam” separadamente. Pode ser que nossas emoções nos indiquem uma direção e a nossa mente nos diga “esse não é o teu caminho”. Nesta situação as emoções e os pensamentos perderam a sua coesão, ambos estão desconectados, estão incoerentes entre si.

Qual é o insight sistêmico nesta situação?

Toda mudança ou transformação é primeiro gestada por intermédio de uma incoerência. Porque como nos diz o Bert Hellinger “todo o criativo é somente criativo porque previamente havia algo imperfeito. Somente onde há imperfeições e algo ainda não concluído, onde há defeitos e erros, é possível o criativo”.

Onde começa esse treinamento de aceitação das incoerências e das imperfeições? Como podemos aprender a lidar com as incoerências como uma ferramenta de criatividade? Curiosamente, a fonte da nossa criatividade e do poder de lidar com incoerências vem do nosso relacionamento com os nossos pais.

Se temos um olhar muito crítico das incoerências da vida, se as vemos como obstáculos e não como degraus, seguramente temos o mesmo olhar com respeito aos nossos progenitores.

O que se ouve dizer comumente é que “se os meus pais tivessem sido diferentes…Eu seria esta ou aquela pessoa, ou o meu destino teria sido outro (melhor)…” Frente a isto o Bert Hellinger afirma “crescemos precisamente frente à contrariedade, e crescemos graças aos erros de nossos pais e também graças às dificuldades que acaso tivemos que suportar na infância. Longe de ser prejudicial, é a oportunidade graças à qual crescemos e adquirimos força para a vida real”.

Fazendo o paralelo da atitude frente aos progenitores, observam-se duas posturas possíveis diante das incoerências da vida.

A primeira é a postura daquele (filho) que olha a vida (os pais) com reprovação. Não toma nada dela (dos pais) pois não está (ão) à altura de seus ideais. Não se permite desfrutar da vida (dos pais) porque ela (eles) é (são) imperfeita(os). Vive na queixa.

A segunda postura é a daquele (filho) que diz “Sim, as incoerências formam parte da vida (dos meus pais), isso é o dínamo da minha evolução, do meu desenvolvimento.” Toma a vida (os pais) como ela é (eles são). Vive no agradecimento.

Qual dos 2 tem mais força, poder de ação e plenitude? Qual dos 2 vive na abundância?

A passagem da primeira para a segunda postura está em perceber que foram as dificuldades inerentes à eles, as que permitiram o nosso desenvolvimento, e não só o permitiram, mas o estimularam e o fizeram possível.

E não por acaso na visão sistêmica diz-se que como tratamos os nossos pais tratamos à vida, pois na “vida real”, as incoerências estão presentes por toda parte a nível individual e coletivo. São uma parte inerente a vida mesma. E elas são o dínamo por trás da evolução humana, assim como as incoerências dos nossos pais foram o que fizeram possível o nosso desenvolvimento.

Como podemos ver as incoerências são as nossas aliadas, são um presente da vida para nós.