Recentemente estava lendo uma das obras de Bert Hellinger e o texto abaixo me curou de alguns conflitos internos que lembranças de imagens terríveis provocavam em mim. Não se tratava de histórias pessoais, eram fatos de violência extrema vividos por outras pessoas que me perturbavam muito; vistos nesses vídeos que começam a passar automaticamente no Facebook e que de repente a informação já entrou, nos invadiu e deixou a sua impressão em nós. Era como se tivessem acontecido comigo.

O texto do Bert Hellinger é sobre as lembranças de Auschwitz. Editei algumas partes para encurtar o relato e inseri os meus aprendizados. As palavras do Hellinger estão entre aspas, minhas reflexões entre parênteses.

“Gostaria de advertir sobre o “aumentar a importância do passado”. Senão, de repente, os vivos tornam-se como mortos e os mortos como os vivos. Então, tudo fica invertido e isso é contra o curso da vida.“

(Eu tinha um pequeno vislumbre disto, de estar presa no passado. Perguntava-me qual era a utilidade de compartilhar vídeos de atrocidades – e aqui eu já me colocava na posição de julgamento – vídeos de fatos ocorridos sabe-se lá quando, mas que traziam os acontecimentos de volta ao presente. Talvez tudo já estivesse resolvido, talvez os envolvidos já tivessem encontrado a paz, mas apenas a lembrança das imagens me provocava sempre um tremenda perturbação. Eu não estava em paz, eu não era um fator de paz para o mundo com aqueles sentimentos de ansiedade, de dor, de vitimismo – sem mesmo ser vítima. Eu sabia que havia algo a integrar.)

“Por trás da acusação pública contra os agressores e o conselho de se recordar esses crimes, a fim de que isso não aconteça de novo, atua a ideia de que esses acontecimentos foram dirigidos por pessoas e que poderiam ter sido evitados. Para mim, é uma presunção ter a idéia de que tais movimentos monstruosos, como essa guerra, pudessem ter sido evitados por pessoas […]”
“Quando nutrimos essas idéias na alma, freqüentemente julgamos ser melhores do que os agressores de outrora. Contudo, os agressores de outrora cometeram esses atos terríveis porque julgavam ser melhores. Se eu os acuso, talvez me equipare com eles internamente. Por isso, é tão perigoso.”
“[…] A acusação impede o luto. Os acusadores impedem o que para as vítimas é a única coisa condizente, isto é o luto. O luto conjunto une. Aqui não existe mais qualquer arrogância. É esse luto que cura.”

(E aqui foi quando eu percebi que toda a minha perturbação escondia apenas a única emoção possível nestes casos: a tristeza. A ansiedade, a dor, etc. eram resistências a assentir aos fatos. Eram provocadas pela ilusão de que aquilo podia ter sido diferente, ou que jamais deveria ter acontecido.
O luto só pôde ser sentido quando, a partir do texto, assenti aos fatos tais e como foram, sem querer que fossem diferentes do que foram, apenas aceitando-os tais e como aconteceram.
Assentir aos fatos como foram não significa concordar, significa apenas ser testemunha de algo sobre o que não se tem algum poder de ação, por estar localizado numa outra dimensão temporal. E nisso a tristeza é totalmente apropriada, ela traduz a única ação possível com fatos do passado, sentir profundamente por algo terrível que já aconteceu. Depois da tristeza veio a paz.)

“O autêntico recordar é o recordar que cura. Um recordar que finaliza algo e, ao mesmo tempo, une algo que estava separado.”

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Aquelas imagens já não me atormentam, se penso nelas não consigo mais vê-las com nitidez e ao pensar nos envolvidos já não sinto a diferença entre vítimas e agressores, não vejo um melhor que outro, vejo apenas pessoas envolvidas em dramas humanos. O texto do Hellinger uniu em mim o que estava separado. Senti a emoção apropriada para a situação e fui liberada.

Emoções que se perpetuam indicam que estamos presos a algo do passado. As emoções ligadas ao presente, são efêmeras, são sentidas em resposta a um estímulo presente. Emoção vem do latim emovere que significa movimento e o movimento só é possível no presente.

Quando alguém experimenta algo terrível (nosso ou como no meu caso “emprestado” de outros) isso freqüentemente é reprimido. Era o que eu fazia, apenas tentava tirar dos meus pensamentos essas lembranças quando afloravam. A psicanálise mostrou que é importante trazer à luz o que foi reprimido. Mas a observação (de Bert Hellinger) mostra que quando algo é trazido à luz isso ainda não é a solução. Ainda é necessário outro passo importante. O passo importante é que a pessoa concorde com o que aconteceu sem lamentação.